sexta-feira, 2 de julho de 2010

Lembrar, aprender ou...

...apenas refletir. Fico com a última opção.

O rouxinol e a rosa
Oscar Wilde


"Ela disse que dançaria comigo se eu lhe trouxesse rosas vermelhas", exclamou o jovem Estudante, "mas em todo o meu jardim não há nenhuma rosa vermelha."

Do seu ninho no alto da azinheira, o Rouxinol o ouviu, e olhou por entre as folhas, e ficou a pensar.

"Não há nenhuma rosa vermelha em todo o meu jardim!", exclamou ele, e seus lindos olhos encheram-se de lágrimas. "Ah, nossa felicidade depende de coisas tão pequenas! Já li tudo que escreveram os sábios, conheço todos os segredos da filosofia, e, no entanto por falta de uma rosa vermelha minha vida infeliz."

"Finalmente, eis um que ama de verdade", disse o Rouxinol. "Noite após noite eu o tenho cantado, muito embora não o conhecesse: noite após noite tenho contado sua história para as estrelas, e eis que agora o vejo. Seus cabelos são escuros como a flor do jacinto, e seus lábios são vermelhos como a rosa de seu desejo; porém a paixão transformou-lhe o rosto em marfim pálido, e a cravou-lhe na fronte sua marca."

"Amanhã haverá um baile no palácio do príncipe", murmurou o jovem Estudante, "e minha amada estará entre os convidados. Se eu lhe trouxer uma rosa vermelha, ela há de dançar comigo até o dia raiar. Se lhe trouxer uma rosa vermelha, eu a terei nos meus braços, e ela deitará a cabeça no meu ombro, e sua mão ficará apertada na minha. Porém não há nenhuma rosa vermelha no meu jardim, e por isso ficarei sozinho, e ela passará por mim sem me olhar. Não me dará nenhuma atenção, e meu coração será destroçado."

"Sim, ele ama de verdade", disse o Rouxinol. "Aquilo que eu canto, ele sofre; o que para mim é júbilo, para ele é sofrimento. Sem dúvida, o Amor é uma coisa maravilhosa. É mais precioso do que as esmeraldas, mais caro do que as opalas finas. Nem pérolas nem romãs podem comprá-lo, nem é coisa que se encontre à venda no mercado. Não é possível comprá-lo de comerciante, nem pesá-lo numa balança em troca de ouro".

"Os músicos no balcão", disse o jovem Estudante, "tocarão seus instrumentos de corda, e meu amor dançará ao som da harpa e do violino. Dançará com pés tão leves que nem sequer hão de tocar no chão, e os cortesãos, com seus trajes coloridos, vão cercá-la. Porém comigo ela não dançará, porque não tenho nenhuma rosa vermelha para lhe dar." E jogou-se na grama, cobriu o rosto com as mãos e chorou.

"Por que chora ele?", indagou um pequeno Lagarto Verde, ao passar correndo com a cauda levantada.

"Sim, por quê?", perguntou uma Borboleta, que esvoaçava em torno de um raio de sol.

"Sim, por quê?", sussurrou uma Margarida, virando-se para sua vizinha, com uma voz suave.

"Ele chora por uma rosa vermelha", disse o Rouxinol.

"Uma rosa vermelha?", exclamaram todos. "Mas que ridículo!" E o pequeno Lagarto, que era um tanto cínico, riu à grande.

Porém o Rouxinol compreendia o segredo da dor do Estudante, e calou-se no alto da azinheira, pensando no mistério do Amor.

De repente ele abriu as asas pardas e levantou vôo. Atravessou o arvoredo como uma sombra, e como uma sombra cruzou o jardim.

No centro do gramado havia uma linda Roseira, e quando a viu o Rouxinol foi até ela, pousando num ramo.

"Dá-me uma rosa vermelha", exclamou ele, "que cantarei meu canto mais belo para ti".

Porém a Roseira fez que não com a cabeça.

"Minhas rosas são brancas", respondeu ela, "tão brancas quanto a espuma do mar, e mais brancas que a neve das montanhas. Porém procura minha irmã que cresce junto ao velho relógio de sol, e talvez ela possa te dar o que queres."

Assim, o Rouxinol voou até a Roseira que crescia junto ao velho relógio de sol.

"Dá-me uma rosa vermelha", exclamou ele, "que cantarei meu canto mais belo para ti."

Porém a Roseira fez que não com a cabeça.

"Minhas rosas são amarelas", respondeu ela, "amarelas como os cabelos da sereia que está sentada num trono de âmbar, e mais amarelas que o narciso que floresce no prado quando o ceifeiro ainda não veio com sua foice. Porém procura minha irmã que cresce junto à janela do Estudante, e talvez ela possa te dar o que queres."

Assim, o Rouxinol voou até a Roseira que crescia junto à janela do Estudante.

"Dá-me uma rosa vermelha", exclamou ele, "que cantarei meu canto mais belo para ti."

Porém a Roseira fez que não com a cabeça.

"Minhas rosas são vermelhas", respondeu ela, "vermelhas como os pés da pomba, e mais vermelhas que os grandes leques de coral que ficam a abanar na caverna no fundo do oceano. Porém o inverno congelou minhas veias, e o frio queimou meus brotos, e a tempestade quebrou meus galhos, e não darei nenhuma rosa este ano."

"Uma única rosa vermelha é tudo que quero", exclamou o Rouxinol, só uma rosa vermelha! Não há nenhuma maneira de consegui-la?"

"Existe uma maneira", respondeu a Roseira, "mas é tão terrível que não ouso te contar."

"Conta-me", disse o Rouxinol. "Não tenho medo."

"Se queres uma rosa vermelha", disse a Roseira, "tens de criá-la com tua música ao luar, e tingi-Ia com o sangue de teu coração. Tens de cantar para mim apertando o peito contra um espinho. A noite inteira tens de cantar para mim, até que o espinho perfure teu coração e teu sangue penetre em minhas veias, e se torne meu."

"A Morte é um preço alto a pagar por uma rosa vermelha", exclamou o Rouxinol, "e todos dão muito valor à Vida. É agradável, no bosque verdejante, ver o Sol em sua carruagem de ouro, e a Lua em sua carruagem de madrepérola. Doce é o perfume do pilriteiro, e as belas são as campânulas que se escondem no vale, e as urzes que florescem no morro. Porém o Amor é melhor que a Vida, e o que é o coração de um pássaro comparado com o coração de um homem?"

Assim, ele abriu as asas pardas e levantou vôo. Atravessou o jardim como uma sombra, e como uma sombra voou pelo arvoredo.

O jovem Estudante continuava deitado na grama, onde o Rouxinol o havia deixado, e as lágrimas ainda não haviam secado em seus belos olhos.

"Regozija-te", exclamou o Rouxinol, "regozija-te; terás tua rosa vermelha. Vou criá-la com minha música ao luar, e tingi-la com o sangue do meu coração. Tudo que te peço em troca é que ames de verdade, pois o Amor é mais sábio que a Filosofia, por mais sábio que ela seja, e mais poderoso que o Poder, por mais poderoso que ele seja. Suas asas são da cor do fogo, e tem a cor do fogo seu corpo. Seus lábios são doces como o mel, e seu hálito são como o incenso.

O Estudante levantou os olhos e ficou a escutá-lo, porém não compreendia o que lhe dizia o Rouxinol, pois só conhecia as coisas que estão escritas nos livros.

Mas o Carvalho compreendeu, e entristeceu-se, pois ele gostava muito do pequeno Rouxinol que havia construído um ninho em seus galhos.

"Canta uma última canção para mim", sussurrou ele; "vou sentir-me muito solitário depois que tu partires."

Assim, o Rouxinol cantou para o Carvalho, e sua voz era como água jorrando de uma jarra de prata.

Quando o Rouxinol terminou sua canção, o Estudante levantou-se, tirando do bolso um caderno e um lápis.

"Forma ele tem", disse ele a si próprio, enquanto se afastava, caminhando pelo arvoredo, "isso não se pode negar; mas terá sentimentos? Temo que não. Na verdade, ele é como a maioria dos artistas; só estilo, nenhuma sinceridade. Não seria capaz de sacrificar-se pelos outros. Pensa só na música, e todos sabem que as artes são egoístas. Mesmo assim, devo admitir que há algumas notas belas em sua voz. Pena que nada signifiquem, nem façam nada de bom na prática." E foi para seu quarto, deitou-se em sua pequena enxerga e começou a pensar em seu amor; depois de algum tempo, adormeceu.

E quando a Lua brilhava nos céus, o Rouxinol voou até a Roseira e cravou o peito no espinho. A noite inteira ele cantou apertando o peito contra o espinho, e a Lua, fria e cristalina, inclinou-se para ouvir. A noite inteira ele cantou, e o espinho foi se cravando cada vez mais fundo em seu peito, e o sangue foi-lhe escapando das veias.

Cantou primeiro o nascimento do amor no coração de um rapaz e de uma moça. E no ramo mais alto da Roseira abriu-se uma rosa maravilhosa, pétala após pétala, à medida que canção seguia canção. Pálida era, de início, como a névoa que paira sobre o rio - pálida como os pés da manhã, e prateada como
as asas da alvorada. Como a sombra de uma rosa num espelho de prata, como a sombra de uma rosa numa poça d' água, tal era a rosa que floresceu no ramo mais alto da Roseira.

Porém a Roseira disse ao Rouxinol que se apertasse com mais força contra o espinho. “Aperta-te mais, pequeno Rouxinol”, exclamou a Roseira, "senão o dia chegará antes que esteja pronta a rosa."

Assim, o Rouxinol apertou-se com ainda mais força contra o espinho, e seu canto soou mais alto, pois ele cantava o nascimento da paixão na alma de um homem e uma mulher.

E um toque róseo delicado surgiu nas folhas da rosa, tal como o rubor nas faces do noivo quando ele beija os lábios da noiva. Porém o espinho ainda não havia penetrado até seu coração, e assim o coração da rosa permanecia branco, pois só o coração do sangue de um Rouxinol pode tingir de vermelho o coração de uma rosa.

E a Roseira insistia para que o Rouxinol se apertasse com mais força contra o espinho. "Aperta-te mais, pequeno Rouxinol", exclamou a Roseira, "senão o dia chegará antes que esteja pronta a rosa."

Assim, o Rouxinol apertou-se com ainda mais força contra o espinho, e uma feroz pontada de dor atravessou-lhe o corpo. Terrível, terrível era a dor, e mais e mais tremendo era seu canto, pois ele cantava o Amor que é levado à perfeição pela Morte, o Amor que não morre no túmulo.

E a rosa maravilhosa ficou rubra, como a rosa do céu ao alvorecer. Rubra era sua grinalda de pétalas, e rubro como um rubi era seu coração.

Porém a voz do Rouxinol ficava cada vez mais fraca, e suas pequenas asas começaram a se bater, e seus olhos se embaçaram. Mais e mais fraca era sua canção, e ele sentiu algo a lhe sufocar a garganta.

Então se desprendeu dele uma derradeira explosão de música. A Lua alva a ouviu, e esqueceu-se do amanhecer, e permaneceu no céu. A rosa rubra a ouviu, e estremeceu de êxtase, e abriu suas pétalas para o ar frio da manhã. O eco voou para sua caverna púrpura nas montanhas, e despertou de seus
sonhos os pastores adormecidos. A música flutuou por entre os juncos do rio, e eles levaram sua mensagem até o mar.

"Olha, olha!", exclamou a Roseira, "a rosa está pronta." Porém o Rouxinol não deu resposta, pois jazia morto na grama alta, com o espinho cravado no coração.

E ao meio-dia o Estudante abriu a janela e olhou para fora.

"Ora, mas que sorte extraordinária!", exclamou. "Eis aqui uma rosa vermelha! Nunca vi uma rosa semelhante em toda minha vida. É tão bela que deve ter um nome comprido em latim." E, abaixando-se, colheu-a.

Em seguida, pôs o chapéu e correu até a casa do Professor com a rosa na mão.

A filha do Professor estava sentada à porta, enrolando seda azul num carretel, e seu cãozinho estava deitado a seus pés.

"Disseste que dançarias comigo se eu te trouxesse uma rosa vermelha", disse o Estudante. "Eis aqui a rosa mais vermelha de todo o mundo. Tu a usarás junto ao teu coração, e quando dançarmos ela te dirá quanto te amo."

Porém a moça franziu a testa.

"Creio que não vai combinar com meu vestido", respondeu ela; "e, além disso, o sobrinho do Tesoureiro enviou-me jóias de verdade, e todo mundo sabe que as jóias custam muito mais do que as flores."

"Ora, mas és mesmo uma ingrata", disse o Estudante, zangado, e jogou a rosa na rua; a flor caiu na sarjeta, e uma carroça passou por cima dela.

"Ingrata!", exclamou a moça. "Tu é que és muito mal-educado; e quem és tu? Apenas um Estudante. Ora, creio que não tens sequer fivelas de prata em teus sapatos, como tem o sobrinho do Tesoureiro." E, levantando-se, entrou em casa.

"Que coisa mais tola é o Amor!", disse o Estudante enquanto se afastava. "É bem menos útil que a Lógica, pois nada prova, e fica o tempo todo a nos dizer coisas que não vão acontecer, e fazendo-nos acreditar em coisas que não são verdade. No final das contas, é algo muito pouco prático, e como em nossos tempos ser prático é tudo, vou retomar a Filosofia e estudar Metafísica."

Assim, voltou para seu quarto, pegou um livro grande e poeirento, e começou a ler.

domingo, 13 de junho de 2010

Pra falar sobre alma e espírito

"Por isso nunca ficamos desanimados. Mesmo que nosso corpo vá se gastando, o nosso espírito se renova a cada dia. Essa pequena e passageira aflição que vivemos vai nos trazer uma glória enorme e eterna, muito maior que o sofrimento."
2 Coríntios 4: 16

Eis um tema polêmico onde eu gastaria infinitas linhas tentando dar forma a algo que não tem, sendo assim não quero esgotá-lo aqui. Não posso deixar notar a diferença entre espírito e alma, esse último aproxima-se mais do imaterial que vive dentro de nós. Enquanto a alma é motivo de eterna descoberta, espírito é uma incógnita. Por isso mesmo, deixo que cada um veja espírito com os olhos de sua verdade. De onde estou apenas concluo e espírito e alma coexistem.


O corpo torna o espírito visível, mas com o preço de torná-lo atingível. É certo que somos guiados pelo consciente e desviados pelo inconsciente, que a incrível máquina chamada cérebro na verdade é um labirinto, um labirinto com paredes altas porém transponíveis. São raras as pessoas que se despendem nessa aventura, a aventura de conhecer a si mesmo, um tipo de sosofobia.


Alma é uma palavra muito usada em poesia, nos dá a dimensão de algo oculto e perdido em algum canto, que guarda apenas a beleza. Em qualquer canto talvez, às vezes doamos uma parte de nossa alma na tentativa de imortalizá-la, dentro de alguém, na matéria de um objeto. Às vezes a perdemos pela ligação umbilical que a submetemos, até quando não há (mais) necessidade.


Espírito, algumas pessoas se arrepiam com essa palavra. Fantasma, quase sempre causa temor, é a ideia de algo indesejável que retorna. Eu aprendi a não ter medo de tudo àquilo que não seja humano. Se alma e espírito existem, provavelmente é a transcendência do ser humano, é um estado que habita o mundo da perfeição.


Será então que o pecado está incutido apenas no material? Quanto um espírito suporta quando cotejado a um animal irracional? Em outras palavras, eu desejo saber se a luz é o destino de todos os espíritos. A resposta mais óbvia é que não, que existem espíritos que se assemelham a fantasmas, e almas que tiram a energia de outras ao seu redor. Talvez seja apenas uma condição onde sua submissão é justificada pela busca da perfeição, afinal, “não existe escuridão, apenas a ausência da luz”.


É impossível não tocar no assunto imortalidade, outro óbice que toma diversos aspectos, seja por aqueles que acreditam na reencarnação, ou aqueles que acreditam em céu e inferno. É sabido que a biologia através da seleção natural deu cria a um invejável ser imortal*, mas não é nesta imortalidade que estou tocando, refiro-me ao estágio que precede a morte física. Relatos de pessoas que afirmam ter visitado esse outro “descrito” mundo é muito comum, assim como a ideia histórica de ser um lugar plácido, iluminado, com pessoas trajando roupas brancas, enfim, o paraíso. Um paraíso tocável, onde espíritos ganham forma ou assumem sua forma real. Imortalidade me soa como uma ambição, adoto a eternidade, pois me soa como um divino laurel.


Viver é não esquecer que viver é finito, é cuidar do exterior por necessidade e do interior pela felicidade, é saber encontrar um lar em nós mesmos e, principalmente, encontrar o lar num semelhante.

*http://super.abril.com.br/ciencia/voce-pode-ser-imortal-535997.shtml

sábado, 5 de junho de 2010

Ao desconhecido

Algo transpôs meus olhos
E me fez perceber o quão estou vulnerável
O quão por mais forte que eu confie estar
A simples rotura de uma fenda basta
Para deixar o vento atravessar e me levar à outra costa

Algo tocou meus pés
Tornei-me ciente do que não era bem-vindo
Ofereci apenas o visível para aqueles que apenas esperavam ver
Há coisas que morrerão comigo, mas que minha aura denuncia
E outras que minha falsa realidade apagará

Algo desfalcou minha voz
Não havia outra força além da suficiente para mim
O medo me fez consumir todo o oxigênio tentando lhe afogar
Agir como um animal às vezes é ser humano
Nos últimos baques vi que é disto que um humano passa
E como um baque estes passam

Algo gritava comigo e eu não entendia
Eu não quero entender outro dialeto que não seja o meu
Eu não quero ganhar asas e descobrir que o mundo nunca foi feito pra mim
Eu só quero voar o mais alto possível e me congelar
Vou despencar frio, frio... Ninguém notará que eu
Na verdade era aquele que partiu do mais alto empíreo
Ofuscou a claridade e lhes roubou a atenção
Uma única vez, por um torpe motivo

Algo me estendeu o braço
Agarrei-me como um novo pupilo ao último abraço
Sem demonstrar-me alento
Apenas desejava que me acompanhasse
Afinal sempre quero saber o que vem após
Não temi que o ponto final enfim se descortinara

Algo me ancorou
Eu estava sobre alguma espécie de encanto
Eu estava num sonho que virou pesadelo
Agora apenas seguro firme na mão
De quem um dia eu quis que voltasse pelo atalho
Que criei num solo inconsistente
Eis a época em que eu agia por impulso

Viver na ilusão era a regra
Viver na realidade agora é minha punição

Que alguém me permita ser empurrado...

Impulso I

Não são todos que têm o dom da própria vontade
Não são todos que entendem que não há ninguém que te obrigue a agir
Há apenas a reação
Há apenas a intuição
Há apenas...
...você


(...)

domingo, 14 de março de 2010

Resposta à "Sobre a escrita"

Também já percebi como palavras saem mais eminente do que o pintar das letras, talvez seja mais fácil nos darmos com ela.

Tudo podemos escrever, apenas quero que use-a quando as palavras não forem suficientes. O começo em tudo é sempre difícil, mas nada que uma boa inspiração não ajude. A palavra é seu meio e pra mim é fundamental, mesmo sabendo que seu jogo pode ser traiçoeiro. E quem não é contraditório as vezes? Por que não podemos dizer palavras erradas? Por que não podemos esquecer que a alma existe? Ah, prefiro morrer sem descobrir.

Palavras modeladas passam por muitos filtros: moral, timidez, situação, coragem, conhecimento; entenda como quiser, pois tenho desafeto com aqueles que as usam apenas como escudo. E simplicidade, é objetiva e clara, pode ferir, porém pode revelar verdades; assim como expressar de outro modo, palavras sem tradução. Diga-se sentimentos.

Palavra secreta, a chave da Caixa de Pandora. Ela está lá dentro, parece próxima e a unica certeza é que ela só sairá quando for evocada. Mas que atire a primeira pedra quem nunca atreveu-se na tentativa de descobri-la. Não sei, não tenho a mínima ideia de qual seja a minha e, mesmo que eu a descubra, acharei um outro modo de dar-lhe-a vida; sou medroso o suficiente e tenho medo das consequências. Algo a ser pensado, como mudar medo apenas para cautela. Palavras também podem te expulsar do Éden, assim como pacificar ânimos e servir como um oásis.

"Simplesmente não há palavras."

Infinitamente mais importante. A música é uma palavra mais evoluída, cada sílaba, combinada com a melodia, toca diferentes partes de nossa alma, servindo com adubo para aquelas que apenas esperam um raio de luz para crescerem, se solidificarem e planarem pelos ares. Não comparo nossos sons com o dos animais. O canto de uma ave é singular, sim, talvez somos mais privilegiados, porém todas as singularidades explicam como a natureza é capaz de criar e de nos recompor. Sigo um caminho diferente, cada vez mais necessito de palavras, cada vez mais tento transmitir o necessário, mas há ocasiões que o necessário passa a ser uma incógnita... neste mesmo caminho, eu procuro as respostas que estão após as reticências. E, as vezes, acabo sendo o tolo que por causa de uma palavra, evitou que a vida seguisse o seu melhor curso naquela ocasião.

"Simplesmente as palavras do homem".

Simplesmente o ser humano e sua infinita busca pela tradução de si mesmo.



Vide: Sobre a escrita, por Clarice Lispector


domingo, 31 de janeiro de 2010

"Les questionnaires de Marcel Proust"

Marcel Proust, mais um literário dos meados do século XIX, louco e genial. À sua época, era uma tradição a apresentação de um rapaz a uma família através de um questionário. Por ele eram reveladas sua personalidade e suas aspirações. Ele o respondeu várias vezes, sobrando apenas dois registros, o primeiro, respondido aos quatorze/quinze anos, e o segundo, aos vinte/vinte e um anos. Atualmente, esse questionário ganhou novas versões, obviamente pelo original ter questões específicas que hoje não são todos que têm a resposta. Mas eu vou tentar responder o original, (agora aos dezoito anos e, quiçá, aos vinte e oito), com vinte e nove questões (acho que sairia melhor se eu tivesse vivido naquela época pós-iluminista):


1. Qual é a sua maior qualidade?

Reflexivo. Vou complementar o pensamento de Proust sobre sua teoria da memória e da culpa, ele tenta explicar as atitudes biologicamente, e é bem válido, mas eu incluiria a reflexão como meio-termo, afinal, a origem é o desejo e a consequencia, se não boa, é a culpa. Aí encontramos a reflexão. Ser reflexivo pra mim não é ser inseguro nas atitudes, mas ser responsável.


2. E seu maior defeito?

Insegurança. Não é piada quanto a pergunta anterior, não quero ser contraditório, mas isso é verdade. Segurança eu adquiro com a experiência, e até ela preciso do elemento coragem. Porém tenho algumas inseguranças que talvez eu nunca superarei, como exemplo, a arte de expressar sentimentos (...)


3. A característica mais importante em um homem?

As de praxe, como honestidade, inteligência, bom caráter, virtuosidade... Mas a pergunta pediu apenas uma característica (isso nem Proust notou), então eu elejo a sensibilidade. Isso é encontrado comumente nas mulheres, por isso admiro os homens que estão além do que a moralidade condena.


4. E em uma mulher?

O que a torna feminina. Mesmo hoje, quando elas buscam a igualdade dos sexos, querendo ou não elas em muitos ângulos são bem diferentes. O que quero dizer com "o que a torna feminina", não estou me referindo ao comportamento, coisas necessárias a todas elas, etc. Estou me referindo a essência que as torna seres mais ligados com os sentimentos, com as questões da felicidade, enfim, com as julgadas "pequenas coisas da vida", que podem parecer pequenas mas são fundamentais na vida de qualquer pessoa.


5. O que você mais aprecia nos seus amigos?

Dedicação. Dedicação que dispensam ao que chamamos de amizade. E aí encontramos a sinceridade, o querer-bem, o poder com quem contar, a companhia e aquela palavra amiga. Existem muitos tipos de amizade, pois, como diz o ditado, "cada cabeça, uma sentença". Mas penso que se for depender apenas do racional, que tipo de amizade existe?


6. Sua atividade favorita é…?

Ouvir música. É algo que me dá inspiração. É algo que traduz sentimentos, acentua alegrias e conforta tristezas. Alguns dizem que ouvir música é apenas uma forma de divagar, esquecer o quanto o mundo é cruel. Concordo, mas acho válido procurarmos a calmaria mesmo dentro da tempestade.


7. Qual a sua ideia de felicidade?

Caminhar sempre na direção do sol. Eu não tenho outra explicação plausível, sinceramente tenho até medo de responder essa pergunta, visto que a minha felicidade é minha, e talvez não a entendam. Bom, o contrário da felicidade pra mim seria "viver no lugar onde o sol brilha azul". Então eu caminho na direção do sol sem medo de me queimar, pois isso é inevitável, assim como a cicatriz (...)


8. E o que seria a maior das tragédias?

Perder minha consciência (pra falar a verdade, meu atual vício).


9. Quem você gostaria de ser, se não fosse você mesmo?

Eu queria que "quem" fosse "o que"!
Nietzsche.


10. E onde gostaria de viver?

O litoral da Inglaterra parece perfeito.


11. Qual sua cor favorita?

Vermelho.


12. Uma flor?

Miosótis (me lembrar uma noite estrelada).


13. Um pássaro?

Andorinha.






14. Seus autores preferidos...?

Victor Hugo, Hobbes, Hans Kelsen, Oscar Wilde...


15. E os poetas que mais gosta?

Clarice Lispector, Shakespeare, Cecília Meireles,Drummond e não vou esquecer do Mário Quintana, afinal, nunca esqueço dele quando estou assim... sendo questionado.



16. Quem são seus heróis de ficção?

Benjamim Barker quando Sweeney Tood. Realmente esse é o único que me vem a cabeça quando me questiono "o que fulano de tal faria se estivesse em meu lugar?"


17. E as heroínas?

Rose, sim, do Titanic, mas também me vem à cabeça Jamie Sullivan, de A Walk to Remember (ela se encaixa bem na resposta da questão 4).



18. Seu compositor favorito é…?

Ah, Beethoven, apesar de eu ter me distanciado um pouco de suas obras.


19. Os pintores que você mais gosta...?

No colégio aprendi a gostar de Monet e Van Gogh, atualmente tenho me dedicado a John William Waterhouse.


20. Quem são suas heroínas na vida real?

As trabalhadoras do Triangle Shirtwaist, tive o prazer de conhecer a história além do que é lembrado vagamente no dia 8 de março.


21. E quem são seus heróis?

Nelson Mandela e o anônimo dessa foto tão famosa:



22. Qual sua palavra favorita?

Essa resposta é temporal: Harmonia.



23. O que você mais detesta?

Apatia, o resto, é conseqüência desta.



24. Quais são os personagens históricos que você mais despreza?

Aqueles que tentaram (ou até hoje tentam) dominar o mundo convencendo as massas de sua designação divina. Como exemplo, Hitler, que se julgava enviado por Deus para purificar as nações.


25. Quais dons naturais você gostaria de possuir?

Tocar piano (apesar de que ainda não me expus de verdade a tal desafio).



26. Como você gostaria de morrer?

No topo de um morro, “banhado em arrebol”, deitado num chão forrado em folhas secas.




27. Qual seu atual estado de espírito?

Andando em nuvens que não existem, e provavelmente nunca existirão.



28. Que defeito é mais fácil perdoar?

Medo de se arriscar em novas experiências. É algo inerente a todos, por isso não é obrigatória sua total superação, mas creio que parcialmente sim.

29. Qual é o lema da sua vida?

“Nosce te ipsum”

=]

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

"Saudade de sua voz"

A seguir, uma das matérias (senão a) mais bonitas que já li. Pode ser só mais uma história de vida na qual paramos alguns minutos para refletirmos sobre nossa própria vida, porém a jornalista Eliane Brum foi bem mais além. Bom, só lendo pra entender: Clique aqui