sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Efeméride


-----Hoje, aos 03 de setembro, talvez um dia como qualquer outro, senão por amanhã ser o dia em que se iniciou (para delimitar de modo prático) a Idade Média, com a queda de Roma. Não vou dar aqui uma aula de história, ocuparia milhares de linhas e é de se esperar que a escola regular tenha, ao menos, nos apresentado. Para não tomar mais linhas, vou ao que interessa... ou não, pra quem ainda vive na Idade Média: o desenvolvimento da ciência e do conhecimento.


-----A Era Medieval foi marcada pelo homem tentando dar novas destinações ao capital acumulado na Antiguidade. A filosofia, basicamente, apoiou-se em Platão e Aristóteles, fazendo surgir os neoplatônicos (hostilizados posteriormente pelos cristãos), estes colaboradores no desenvolvimento do pensamento escolástico, a principal contribuição desse momento da história ao que entendemos hoje sobre o eterno conflito entre razão e fé. Tal conflito tentou, nesse momento, "entrar em acordo". A Igreja não estava com medo da "revelação", só temia o que isso acarretaria na erigida salvação. Espalhada por toda a Europa, a filosofia escolástica tentou unir as descobertas da ciência com aquilo atribuído pela Igreja como autoria de Deus, transformando tal objetivo em um verdadeiro dogma.


-----O desenvolvimento da física e da metafísica ampliaram os horizontes que a razão, criada a partir do que é visível, podia não conhecer. O visível também deu conceito ao universo, a Terra foi posta como o centro do restante, estando ela repousada em nada, sustentada apenas pelo poder divino. Internamente ela é repleta de canais de água, afinal a encontramos aonde quer que haja uma escavação. Os continentes ganham nomes: Ásia retira seu nome de uma rainha; Europa idem, do rei Europo e rainha Europa; e a África surge de Afer, um dos descendentes de Abraão.


-----A lua é culpada pelas altas na maré (com razão), porém injustamente responsabilizada pelas tempestades, turbilhões, existência de água doce e salgada. Os demônios vivem nos ares, aprontando-se nas tormentas, esperando pelo o dia do Juízo Final. Os planetas descobertos, sete até então, tinham uma rotação harmônica, cada um com um intervalo diferente, daí surgindo às notas musicais.




Sacrobosco, imprimiu e assim difundiu pelo mundo a astrologia.


-----Surge também, no início do segundo milênio, a primeira universidade, a Universidade de Paris, totalmente submissa ao domínio dos papas quanto ao quadro de professores e o sistema de ensino. Ainda sobre a educação, desde os primeiros anos de vida o método de ensino visava dar continuidade às técnicas já descobertas e praticadas pelo homem, além de criar, dentro de uma nação, uma sociedade de cultos, através da ressuscitada Belas Letras.


-----Desde os primeiros pensamentos escolásticos, surge a concepção de que o homem é formado de corpo e alma, fato até então defendido pelos cristãos, mas agora posto de outra forma, onde ao contrário do pensamento religioso, tornava-se difícil a aceitação da imortalidade da alma. O corpo usa de seus sentidos para construir o intelecto, já a alma é responsável pela sensibilidade e pela criação de imagens para seu processamento pelo intelecto, além de ser o instrumento de Deus para o nosso contato com Ele. Todo homem que entra em contato com seu interior, aí sim conhece Deus.


-----E por fim, algo que não poderia faltar: o direito. Na escolástica, encontramos os primórdios da sistematização do direito, dividindo-o em leis da razão divina, leis da lógica da natureza, e leis do homem para consigo mesmo. Todas essas linhas do direito deveriam estabelecer uma relação harmônica para a cristalização de uma sociedade organizada e desenvolvida. Com o passar dos séculos, todo esse pensamento tornou-se racional, onde foi afastada a influência da religião, como hoje podemos ver.


-----Por tratar-se de um período caracterizado pelo desenvolvimento do pensamento a cerca do papel e posição do homem, a Idade Média ainda encontra-se, de alguma forma, sobre a sociedade contemporânea. Aquele velho sonho surgido na Universidade de Paris, ainda vive: pensar o verdadeiro para toda a humanidade e fazer com que ela aceite o que o verdadeiro impõe.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O advogado revoltado!

Hoje recebi uma nova jurisprudência sobre denúncia vazia (refere-se quando o dono de um imóvel despeja seu inquilino sem dar satisfações), e eis que enconto um comentário do órgão de publicação a respeito do Proc. 89.0011039-0, porém por ele datar o ano de 1990, não há registro de acórdão no sistema do TJ. Em outra busca, localizei-o digitalizado, e achei tão incrível... aliás, uma pérola do nosso direito, por isso posto aqui.

Em síntese:

1) O processo foi distribuído em 1989, e logo no início o juiz determinou
a apresentação de provas. O advogado, convicto que as provas constantes no Processo eram suficientes, aguardou um ano para que o juiz considerasse que não haviam mais provas. O Dr. reclamou que seu expediente já havia muito tempo de concluso para despacho (aguardando resposta do juiz), como pode-se ver na imagem abaixo sua manifestação "original":


2) Obviamente, a simpática ilustração foi considerada um desrespeito e o juiz determinou a representação do advogado na Ordem (isso é pior do que perder uma Ação), isso em 1991:



3) O advogado-artista apelou para uma instância superior em 2000 (apelação nº 95.03.094446-5), afinal, o processo ainda não tinha se encerrado (digno de Guinness Book). Porém, pareceu que ele quis lançar sua carreira a nível federal, não só artística mas também humorística:

Clique aqui.


4) Como se viu na apelação acima, sua cliente acabou falecendo, assim como a Ação, pois os herdeiros sucederam, como de direito, porém desistiram de dar prosseguimento. Outras ações em nome da, agora, de cujus, também se extinguiram. É difícil uma comédia ter um fim tão triste.

Uma pergunta que importa ao direito: de quem foi a culpa? A resposta é "personalíssima", porém o Judiciário entendeu que em boa parte foi do nosso advogado, que não teria apresentado provas suficientes e que tinha sua cliente residindo em comarca diferente. No mais, haviam (como quase sempre há) outras alternativas para driblar essa formalidade. Ele poderia, por exemplo, requerer o fim da fase de instrução (fase onde provas são apresentadas, ré(us) citado(s), testemunhas ouvidas, recebimento de defesa prévia, etc).
Desde o começo, os advogados estudam e aprimoram sua técnica de redação. Não se busca uma linguagem rebuscada, cheia de termos em latim e "obséquios", nem com concordancias verbais inutilizadas. Igualmente, não se busca uma linguagem que fuja do verdadeiro objetivo: ser objetivo. É seguida uma linha de escrita média, para uma interpretação média, para pessoas de nível intelectual médio. Por isso, tem razão o juiz de reclamar esse menosprezo.

Tollitur quaestio???

Não. Nosso sistema tem muito o que mudar.

domingo, 18 de julho de 2010

A Justiça Divina nos tempos de hoje

Vou voltar há um ano atrás, quando esse blog era destinado para o que o próprio nome sugere.

A Lei do Talião talvez tenha sido a primeira manifestação do dever de pagar o erro cometido, na proporção do erro, em outras palavras, ser vítima do que praticou. Estamos falando dos ídos ( e muito ídos) de 1.700 a. C., onde o homem não era suficiente claro da sua posição e, principalmente, da posição de seu semelhante. Bom, ainda assim há que considerarmos como uma semente do que hoje chamamos de Direito.
Quero voltar mais ainda, numa época que, particularmente, não acredito em sua existência.

Adão* e Eva.

"A Expulsão do Paraíso", Charles Joseph Natoire, c. 1770



Uma história muito famosa, assim como "fabulosa".


Quero transportar o hoje para aquela época, pois se assim fosse, ainda estaríamos vivendo no Paraíso. Provavelmente Deus estaria respondendo a rogatórias intermináveis, apelos mútuos, precatórias, mandados de segurança, liminares, e toda a infinidade de recursos, além de interrogatórios onde há apenas uma pergunta: que motivo o levou a expulsá-los do Paraíso? - Afinal, trataria-se de uma arbitrariedade, algo sem fundamento jurídico. Hoje, ninguém é obrigado a comer algo sob algum tipo promessa/pena, se assim fosse, se banalizaria.
Se ele fosse julgado no âmbito criminal, a dúvida seria: por que não colocastes a árvore além dos muros do Éden? Por que não sinalizastes do perigo? E o pior, estaria ele induzindo ao crime! Como exemplo, uma ratoeira num lugar estratégico.
Se a primeira lei foi "não comas deste fruto", o único objetivo que a inteligência de hoje concluiria é que, tal lei serviu apenas para criar o castigo.
Talvez Ele tenha achado que o motivo de tudo residia no tédio que Adão e Eva mergulhariam de viver num lugar tão perfeito. Talvez esse argumento seria o principal do advogado Dele.
Hoje defenderíamos Adão e Eva, que se entregaram no momento que expuseram a vergonha do andar nú, e que também após o crime, tentaram fugir e foram vítimas de uma perseguição sem qualquer nexo - como o Todo Poderoso desconhecia o abrigo que se meteram, se Ele próprio conhece todos os esconderijos possíveis, com todos os Anjos a solta?
Só haveria uma explicação: o Paraíso acima do Éden tornará-se um tédio, provavelmente porque Lucifer havia sido expulso de lá.
Deus tomou essa ocasião como uma lição, porém uma lição que prejudicou os descendentes: nós. Como uma criança sem chances de futuro, por ter um pai ou uma mãe recluso(a). Hoje, temos a lei, as infinitas formas de transgressão, o julgamento e, finalmente, o castigo. Talvez criadas para um possível combate às arbitrariedades de Deus, e que também decidiram o destino de seu Filho, findado na crucificação.
Foi um perfeito encontro entre 33 e 2010, onde Pilatos não tinha em mãos leis romanas suficientes para dar-lhe o castigo desejado, nem as judias que proibiam a pena de morte. O promotor Pilatos apelou para a dúvida: nem sim, nem não... Não queria comprometer-se. Jogou a responsabilidade para as mãos do povo, a voz Dele, que acabou não dando o fim desejado com o açoite. Tornou-se um grande espetáculo, onde ofertas feitas com Barrabás foram inúteis. Um duelo assim merecia um final apoteótico. 2010 não admite esse tipo de barbárie, porém as implícitas dominam e estas são as mais violentas.
Direito é algo que nem sempre funciona como deveria funcionar. A Justiça Divina não age através de petições, ela é nossa última esperança, principalmente àqueles que, como eu, não acreditam mais no que impuseram como certo ou errado.


"Ecce Homo" - Desconhecido


*que ironia com o post anterior!




D'alva

Envelheça porque o tempo não nos dá outra alternativa
Escolha envelhecer quando o tempo não mais se adequar a você
E nunca fique velho por vontade alheia
Os outros carregam séculos de conformismo
E toneladas de amargura
Tenha sonhos de um garoto de 10 anos
Ignore as consequências que à ninguém faz mal
Não viva cada minuto como se você o último
Apenas viva cada minuto dando-lhe um sentido
Afinal, cada segundo
Cada milésimo de segundo
Nunca é perdido, sempre é transformado
Então não é o tempo o grande vilão
O tempo acumula-se
E só nos resta tirar a poeira


sexta-feira, 2 de julho de 2010

Lembrar, aprender ou...

...apenas refletir. Fico com a última opção.

O rouxinol e a rosa
Oscar Wilde


"Ela disse que dançaria comigo se eu lhe trouxesse rosas vermelhas", exclamou o jovem Estudante, "mas em todo o meu jardim não há nenhuma rosa vermelha."

Do seu ninho no alto da azinheira, o Rouxinol o ouviu, e olhou por entre as folhas, e ficou a pensar.

"Não há nenhuma rosa vermelha em todo o meu jardim!", exclamou ele, e seus lindos olhos encheram-se de lágrimas. "Ah, nossa felicidade depende de coisas tão pequenas! Já li tudo que escreveram os sábios, conheço todos os segredos da filosofia, e, no entanto por falta de uma rosa vermelha minha vida infeliz."

"Finalmente, eis um que ama de verdade", disse o Rouxinol. "Noite após noite eu o tenho cantado, muito embora não o conhecesse: noite após noite tenho contado sua história para as estrelas, e eis que agora o vejo. Seus cabelos são escuros como a flor do jacinto, e seus lábios são vermelhos como a rosa de seu desejo; porém a paixão transformou-lhe o rosto em marfim pálido, e a cravou-lhe na fronte sua marca."

"Amanhã haverá um baile no palácio do príncipe", murmurou o jovem Estudante, "e minha amada estará entre os convidados. Se eu lhe trouxer uma rosa vermelha, ela há de dançar comigo até o dia raiar. Se lhe trouxer uma rosa vermelha, eu a terei nos meus braços, e ela deitará a cabeça no meu ombro, e sua mão ficará apertada na minha. Porém não há nenhuma rosa vermelha no meu jardim, e por isso ficarei sozinho, e ela passará por mim sem me olhar. Não me dará nenhuma atenção, e meu coração será destroçado."

"Sim, ele ama de verdade", disse o Rouxinol. "Aquilo que eu canto, ele sofre; o que para mim é júbilo, para ele é sofrimento. Sem dúvida, o Amor é uma coisa maravilhosa. É mais precioso do que as esmeraldas, mais caro do que as opalas finas. Nem pérolas nem romãs podem comprá-lo, nem é coisa que se encontre à venda no mercado. Não é possível comprá-lo de comerciante, nem pesá-lo numa balança em troca de ouro".

"Os músicos no balcão", disse o jovem Estudante, "tocarão seus instrumentos de corda, e meu amor dançará ao som da harpa e do violino. Dançará com pés tão leves que nem sequer hão de tocar no chão, e os cortesãos, com seus trajes coloridos, vão cercá-la. Porém comigo ela não dançará, porque não tenho nenhuma rosa vermelha para lhe dar." E jogou-se na grama, cobriu o rosto com as mãos e chorou.

"Por que chora ele?", indagou um pequeno Lagarto Verde, ao passar correndo com a cauda levantada.

"Sim, por quê?", perguntou uma Borboleta, que esvoaçava em torno de um raio de sol.

"Sim, por quê?", sussurrou uma Margarida, virando-se para sua vizinha, com uma voz suave.

"Ele chora por uma rosa vermelha", disse o Rouxinol.

"Uma rosa vermelha?", exclamaram todos. "Mas que ridículo!" E o pequeno Lagarto, que era um tanto cínico, riu à grande.

Porém o Rouxinol compreendia o segredo da dor do Estudante, e calou-se no alto da azinheira, pensando no mistério do Amor.

De repente ele abriu as asas pardas e levantou vôo. Atravessou o arvoredo como uma sombra, e como uma sombra cruzou o jardim.

No centro do gramado havia uma linda Roseira, e quando a viu o Rouxinol foi até ela, pousando num ramo.

"Dá-me uma rosa vermelha", exclamou ele, "que cantarei meu canto mais belo para ti".

Porém a Roseira fez que não com a cabeça.

"Minhas rosas são brancas", respondeu ela, "tão brancas quanto a espuma do mar, e mais brancas que a neve das montanhas. Porém procura minha irmã que cresce junto ao velho relógio de sol, e talvez ela possa te dar o que queres."

Assim, o Rouxinol voou até a Roseira que crescia junto ao velho relógio de sol.

"Dá-me uma rosa vermelha", exclamou ele, "que cantarei meu canto mais belo para ti."

Porém a Roseira fez que não com a cabeça.

"Minhas rosas são amarelas", respondeu ela, "amarelas como os cabelos da sereia que está sentada num trono de âmbar, e mais amarelas que o narciso que floresce no prado quando o ceifeiro ainda não veio com sua foice. Porém procura minha irmã que cresce junto à janela do Estudante, e talvez ela possa te dar o que queres."

Assim, o Rouxinol voou até a Roseira que crescia junto à janela do Estudante.

"Dá-me uma rosa vermelha", exclamou ele, "que cantarei meu canto mais belo para ti."

Porém a Roseira fez que não com a cabeça.

"Minhas rosas são vermelhas", respondeu ela, "vermelhas como os pés da pomba, e mais vermelhas que os grandes leques de coral que ficam a abanar na caverna no fundo do oceano. Porém o inverno congelou minhas veias, e o frio queimou meus brotos, e a tempestade quebrou meus galhos, e não darei nenhuma rosa este ano."

"Uma única rosa vermelha é tudo que quero", exclamou o Rouxinol, só uma rosa vermelha! Não há nenhuma maneira de consegui-la?"

"Existe uma maneira", respondeu a Roseira, "mas é tão terrível que não ouso te contar."

"Conta-me", disse o Rouxinol. "Não tenho medo."

"Se queres uma rosa vermelha", disse a Roseira, "tens de criá-la com tua música ao luar, e tingi-Ia com o sangue de teu coração. Tens de cantar para mim apertando o peito contra um espinho. A noite inteira tens de cantar para mim, até que o espinho perfure teu coração e teu sangue penetre em minhas veias, e se torne meu."

"A Morte é um preço alto a pagar por uma rosa vermelha", exclamou o Rouxinol, "e todos dão muito valor à Vida. É agradável, no bosque verdejante, ver o Sol em sua carruagem de ouro, e a Lua em sua carruagem de madrepérola. Doce é o perfume do pilriteiro, e as belas são as campânulas que se escondem no vale, e as urzes que florescem no morro. Porém o Amor é melhor que a Vida, e o que é o coração de um pássaro comparado com o coração de um homem?"

Assim, ele abriu as asas pardas e levantou vôo. Atravessou o jardim como uma sombra, e como uma sombra voou pelo arvoredo.

O jovem Estudante continuava deitado na grama, onde o Rouxinol o havia deixado, e as lágrimas ainda não haviam secado em seus belos olhos.

"Regozija-te", exclamou o Rouxinol, "regozija-te; terás tua rosa vermelha. Vou criá-la com minha música ao luar, e tingi-la com o sangue do meu coração. Tudo que te peço em troca é que ames de verdade, pois o Amor é mais sábio que a Filosofia, por mais sábio que ela seja, e mais poderoso que o Poder, por mais poderoso que ele seja. Suas asas são da cor do fogo, e tem a cor do fogo seu corpo. Seus lábios são doces como o mel, e seu hálito são como o incenso.

O Estudante levantou os olhos e ficou a escutá-lo, porém não compreendia o que lhe dizia o Rouxinol, pois só conhecia as coisas que estão escritas nos livros.

Mas o Carvalho compreendeu, e entristeceu-se, pois ele gostava muito do pequeno Rouxinol que havia construído um ninho em seus galhos.

"Canta uma última canção para mim", sussurrou ele; "vou sentir-me muito solitário depois que tu partires."

Assim, o Rouxinol cantou para o Carvalho, e sua voz era como água jorrando de uma jarra de prata.

Quando o Rouxinol terminou sua canção, o Estudante levantou-se, tirando do bolso um caderno e um lápis.

"Forma ele tem", disse ele a si próprio, enquanto se afastava, caminhando pelo arvoredo, "isso não se pode negar; mas terá sentimentos? Temo que não. Na verdade, ele é como a maioria dos artistas; só estilo, nenhuma sinceridade. Não seria capaz de sacrificar-se pelos outros. Pensa só na música, e todos sabem que as artes são egoístas. Mesmo assim, devo admitir que há algumas notas belas em sua voz. Pena que nada signifiquem, nem façam nada de bom na prática." E foi para seu quarto, deitou-se em sua pequena enxerga e começou a pensar em seu amor; depois de algum tempo, adormeceu.

E quando a Lua brilhava nos céus, o Rouxinol voou até a Roseira e cravou o peito no espinho. A noite inteira ele cantou apertando o peito contra o espinho, e a Lua, fria e cristalina, inclinou-se para ouvir. A noite inteira ele cantou, e o espinho foi se cravando cada vez mais fundo em seu peito, e o sangue foi-lhe escapando das veias.

Cantou primeiro o nascimento do amor no coração de um rapaz e de uma moça. E no ramo mais alto da Roseira abriu-se uma rosa maravilhosa, pétala após pétala, à medida que canção seguia canção. Pálida era, de início, como a névoa que paira sobre o rio - pálida como os pés da manhã, e prateada como
as asas da alvorada. Como a sombra de uma rosa num espelho de prata, como a sombra de uma rosa numa poça d' água, tal era a rosa que floresceu no ramo mais alto da Roseira.

Porém a Roseira disse ao Rouxinol que se apertasse com mais força contra o espinho. “Aperta-te mais, pequeno Rouxinol”, exclamou a Roseira, "senão o dia chegará antes que esteja pronta a rosa."

Assim, o Rouxinol apertou-se com ainda mais força contra o espinho, e seu canto soou mais alto, pois ele cantava o nascimento da paixão na alma de um homem e uma mulher.

E um toque róseo delicado surgiu nas folhas da rosa, tal como o rubor nas faces do noivo quando ele beija os lábios da noiva. Porém o espinho ainda não havia penetrado até seu coração, e assim o coração da rosa permanecia branco, pois só o coração do sangue de um Rouxinol pode tingir de vermelho o coração de uma rosa.

E a Roseira insistia para que o Rouxinol se apertasse com mais força contra o espinho. "Aperta-te mais, pequeno Rouxinol", exclamou a Roseira, "senão o dia chegará antes que esteja pronta a rosa."

Assim, o Rouxinol apertou-se com ainda mais força contra o espinho, e uma feroz pontada de dor atravessou-lhe o corpo. Terrível, terrível era a dor, e mais e mais tremendo era seu canto, pois ele cantava o Amor que é levado à perfeição pela Morte, o Amor que não morre no túmulo.

E a rosa maravilhosa ficou rubra, como a rosa do céu ao alvorecer. Rubra era sua grinalda de pétalas, e rubro como um rubi era seu coração.

Porém a voz do Rouxinol ficava cada vez mais fraca, e suas pequenas asas começaram a se bater, e seus olhos se embaçaram. Mais e mais fraca era sua canção, e ele sentiu algo a lhe sufocar a garganta.

Então se desprendeu dele uma derradeira explosão de música. A Lua alva a ouviu, e esqueceu-se do amanhecer, e permaneceu no céu. A rosa rubra a ouviu, e estremeceu de êxtase, e abriu suas pétalas para o ar frio da manhã. O eco voou para sua caverna púrpura nas montanhas, e despertou de seus
sonhos os pastores adormecidos. A música flutuou por entre os juncos do rio, e eles levaram sua mensagem até o mar.

"Olha, olha!", exclamou a Roseira, "a rosa está pronta." Porém o Rouxinol não deu resposta, pois jazia morto na grama alta, com o espinho cravado no coração.

E ao meio-dia o Estudante abriu a janela e olhou para fora.

"Ora, mas que sorte extraordinária!", exclamou. "Eis aqui uma rosa vermelha! Nunca vi uma rosa semelhante em toda minha vida. É tão bela que deve ter um nome comprido em latim." E, abaixando-se, colheu-a.

Em seguida, pôs o chapéu e correu até a casa do Professor com a rosa na mão.

A filha do Professor estava sentada à porta, enrolando seda azul num carretel, e seu cãozinho estava deitado a seus pés.

"Disseste que dançarias comigo se eu te trouxesse uma rosa vermelha", disse o Estudante. "Eis aqui a rosa mais vermelha de todo o mundo. Tu a usarás junto ao teu coração, e quando dançarmos ela te dirá quanto te amo."

Porém a moça franziu a testa.

"Creio que não vai combinar com meu vestido", respondeu ela; "e, além disso, o sobrinho do Tesoureiro enviou-me jóias de verdade, e todo mundo sabe que as jóias custam muito mais do que as flores."

"Ora, mas és mesmo uma ingrata", disse o Estudante, zangado, e jogou a rosa na rua; a flor caiu na sarjeta, e uma carroça passou por cima dela.

"Ingrata!", exclamou a moça. "Tu é que és muito mal-educado; e quem és tu? Apenas um Estudante. Ora, creio que não tens sequer fivelas de prata em teus sapatos, como tem o sobrinho do Tesoureiro." E, levantando-se, entrou em casa.

"Que coisa mais tola é o Amor!", disse o Estudante enquanto se afastava. "É bem menos útil que a Lógica, pois nada prova, e fica o tempo todo a nos dizer coisas que não vão acontecer, e fazendo-nos acreditar em coisas que não são verdade. No final das contas, é algo muito pouco prático, e como em nossos tempos ser prático é tudo, vou retomar a Filosofia e estudar Metafísica."

Assim, voltou para seu quarto, pegou um livro grande e poeirento, e começou a ler.

domingo, 13 de junho de 2010

Pra falar sobre alma e espírito

"Por isso nunca ficamos desanimados. Mesmo que nosso corpo vá se gastando, o nosso espírito se renova a cada dia. Essa pequena e passageira aflição que vivemos vai nos trazer uma glória enorme e eterna, muito maior que o sofrimento."
2 Coríntios 4: 16

Eis um tema polêmico onde eu gastaria infinitas linhas tentando dar forma a algo que não tem, sendo assim não quero esgotá-lo aqui. Não posso deixar notar a diferença entre espírito e alma, esse último aproxima-se mais do imaterial que vive dentro de nós. Enquanto a alma é motivo de eterna descoberta, espírito é uma incógnita. Por isso mesmo, deixo que cada um veja espírito com os olhos de sua verdade. De onde estou apenas concluo e espírito e alma coexistem.


O corpo torna o espírito visível, mas com o preço de torná-lo atingível. É certo que somos guiados pelo consciente e desviados pelo inconsciente, que a incrível máquina chamada cérebro na verdade é um labirinto, um labirinto com paredes altas porém transponíveis. São raras as pessoas que se despendem nessa aventura, a aventura de conhecer a si mesmo, um tipo de sosofobia.


Alma é uma palavra muito usada em poesia, nos dá a dimensão de algo oculto e perdido em algum canto, que guarda apenas a beleza. Em qualquer canto talvez, às vezes doamos uma parte de nossa alma na tentativa de imortalizá-la, dentro de alguém, na matéria de um objeto. Às vezes a perdemos pela ligação umbilical que a submetemos, até quando não há (mais) necessidade.


Espírito, algumas pessoas se arrepiam com essa palavra. Fantasma, quase sempre causa temor, é a ideia de algo indesejável que retorna. Eu aprendi a não ter medo de tudo àquilo que não seja humano. Se alma e espírito existem, provavelmente é a transcendência do ser humano, é um estado que habita o mundo da perfeição.


Será então que o pecado está incutido apenas no material? Quanto um espírito suporta quando cotejado a um animal irracional? Em outras palavras, eu desejo saber se a luz é o destino de todos os espíritos. A resposta mais óbvia é que não, que existem espíritos que se assemelham a fantasmas, e almas que tiram a energia de outras ao seu redor. Talvez seja apenas uma condição onde sua submissão é justificada pela busca da perfeição, afinal, “não existe escuridão, apenas a ausência da luz”.


É impossível não tocar no assunto imortalidade, outro óbice que toma diversos aspectos, seja por aqueles que acreditam na reencarnação, ou aqueles que acreditam em céu e inferno. É sabido que a biologia através da seleção natural deu cria a um invejável ser imortal*, mas não é nesta imortalidade que estou tocando, refiro-me ao estágio que precede a morte física. Relatos de pessoas que afirmam ter visitado esse outro “descrito” mundo é muito comum, assim como a ideia histórica de ser um lugar plácido, iluminado, com pessoas trajando roupas brancas, enfim, o paraíso. Um paraíso tocável, onde espíritos ganham forma ou assumem sua forma real. Imortalidade me soa como uma ambição, adoto a eternidade, pois me soa como um divino laurel.


Viver é não esquecer que viver é finito, é cuidar do exterior por necessidade e do interior pela felicidade, é saber encontrar um lar em nós mesmos e, principalmente, encontrar o lar num semelhante.

*http://super.abril.com.br/ciencia/voce-pode-ser-imortal-535997.shtml

sábado, 5 de junho de 2010

Ao desconhecido

Algo transpôs meus olhos
E me fez perceber o quão estou vulnerável
O quão por mais forte que eu confie estar
A simples rotura de uma fenda basta
Para deixar o vento atravessar e me levar à outra costa

Algo tocou meus pés
Tornei-me ciente do que não era bem-vindo
Ofereci apenas o visível para aqueles que apenas esperavam ver
Há coisas que morrerão comigo, mas que minha aura denuncia
E outras que minha falsa realidade apagará

Algo desfalcou minha voz
Não havia outra força além da suficiente para mim
O medo me fez consumir todo o oxigênio tentando lhe afogar
Agir como um animal às vezes é ser humano
Nos últimos baques vi que é disto que um humano passa
E como um baque estes passam

Algo gritava comigo e eu não entendia
Eu não quero entender outro dialeto que não seja o meu
Eu não quero ganhar asas e descobrir que o mundo nunca foi feito pra mim
Eu só quero voar o mais alto possível e me congelar
Vou despencar frio, frio... Ninguém notará que eu
Na verdade era aquele que partiu do mais alto empíreo
Ofuscou a claridade e lhes roubou a atenção
Uma única vez, por um torpe motivo

Algo me estendeu o braço
Agarrei-me como um novo pupilo ao último abraço
Sem demonstrar-me alento
Apenas desejava que me acompanhasse
Afinal sempre quero saber o que vem após
Não temi que o ponto final enfim se descortinara

Algo me ancorou
Eu estava sobre alguma espécie de encanto
Eu estava num sonho que virou pesadelo
Agora apenas seguro firme na mão
De quem um dia eu quis que voltasse pelo atalho
Que criei num solo inconsistente
Eis a época em que eu agia por impulso

Viver na ilusão era a regra
Viver na realidade agora é minha punição

Que alguém me permita ser empurrado...